Aurora

February 23, 2009

e sozinha, dentro da catedral, canto no coro, sem ninguém que me ouça – e assim o quero – canções sem tempo vindas da alma. de meus olhos fatigados escorre água que não reconheço como lágrimas, mas como diamantes. sangue escorre-me pela coxa, que não deixo parar, como água marinha carregada de sal e de furor. meu coração ergue-se até às alturas enquanto canto, olhos fixos na nave, seixo luzente polido décadas e décadas pela corrente no fundo do rio do ouro, que coloquei em mão amada numa noite de tormenta. minha voz alça-se fresca como o sumo de rubra salsaparrilha que cresce viva e selvagem pelos campos desolados. e é ónix negro meu espírito, com luz presa por dentro, reflectindo o nada e o vazio do universo, todos os elementos fundidos e presentes num só. oferta-me o Oriente frutos de granada aberta, o labor da Natureza em todo o seu esplendor, e laranjas vermelhas de suco ácido e fresco para mitigar toda a sede de saudade. veste-me a púrpura da concha de Murex, ataviada como raínha sem reino, que nomes têem os teus reinos? e para coroar a esmagadora solidão é a própria tábua de esmeralda que jaz rachada a meus pés, porque acabei de destruir e tornar obsoleta toda a lei e todo o pecado, e todo o meu sangue canta, canta alto, e corre incessantemente até ti, sem descanso, em cuidados. arrebatada no rubor da aurora.

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