Somni

April 23, 2009

abandono todos os passos que dou, enquanto a razão me sustém, estive aqui sempre, sempre à espera daquele momento inefável em que a tua palavra rasgasse o silêncio, mas isto apenas me trouxe solidão. sobre meu coração deponho a minha mão, és tu o meu sonho que continuo a sonhar ou uma realidade brutal contra a qual não tenho hipótese? mas isto trouxe-me loucura, arranco a frio o meu coração pelo sonho de ti que ergo aos céus desolados.

e agora sentada à beira do abismo, só, esperando, por esta pedra cúbica que coloco para esta nova ponte que construo para atravessar o abismo, receando o vazio a atravessar quando a ponte estiver construída. ergo nas mãos a minha alma como anjo ferido, é este o sonho pelo qual luto sem cessa?

Veritas est Libertas

March 24, 2009

escrevo a sangue. esta noite devia tê-la passado contigo. em vez disso, estou só, inviolada e inviolável, em local seguro, protegida de tudo e todos. cínica, olho para o que os homens me fizeram e penso cinicamente “homens”, mas vejo o que as mulheres fazem e penso cinicamente “mulheres”. o meu descontentamento pela espécie humana – as ilusões derrubadas por terra – são totais. só me resta o mundo interior, a aventura interior, intocada e intocável, que resta como tesouro bem guardado para quem me há-de amar de alma, coração e vida, cujos joelhos se dobrarão frente a mim como uma imagem do antigamente para pedir a minha mão. de resto pouco ou nada interessa. pego nas memórias do passado, guardo as que brilham, o resto reduzo-as a menos que nada. olho para os sequiosos de poder, que pretendem ser soberanos sobre os soberanos, e considero-os como o cotão humano que serve para aplacar a minha sede de sangue. descartaram-me como se fosse uma pária, doravante existem para venerar o chão que eu piso. de joelhos, como merecem estar. porque o poder não se mede aos palmos mas sim por subtis jogadas em que quem vence não é o mais apto mas o mais intrinsicamente veloz. e tu, áí, só no teu mundo de ilusões, achas que podemos ser felizes juntos? eu acho que sim e espero apenas o teu sim para vir de encontro a ti e que me abraces para não me largar mais. não me interessam os esquemas de poder de terceiros – o poder a nós pertence, e se para outros isto é iluminação, prefiro estar às escuras. porque sou uma mulher cínica de maus fígados, cadela fiel de coração partido correndo para a morte certa. se minha dona morre, morro também sobre a sua sepultura, recusando comida e água. sou feita de fidelidade total e absoluta. mas vocês, raça de homens sem norte que vos guie, ensinaram-me a odiar, coisa que detesto, e o que é a frustração por vós imposta. e vocês, espécies de mulheres fracas e submissas, ensinaram-me lições de desprezo. mas nada da vossa maldade arranca o amor puro que trago em mim, porque esse amor é sempre meu e sempre novo e cada vez que penso em ti, além, penso em nós felizes juntos – como sempre fomos, sabes? fomos sempre felizes juntos, pensa nisso. sou rochedo de firmeza e pulso forte nas tempestades. sou um coral de vozes que se erguem na noite para cantar aleluia. não temas ajoelhar-te perante mim, pois não te olharei de cima, o teu pescoço pode descansar. armar-te-ei cavaleiro da ordem dos sonhadores que obstinadamente se recusam a abandonar os seus desejos mais selvagens. no meu abraço arde o calor de todos os fogos do mundo. as mentiras escravizam, mas a verdade liberta. que esperas para me receber?

Arde.

March 15, 2009

quero ver tudo em fogo.  quero que as montanhas ardam, quero que os barcos ardam, quero que as torres ardam, quero que os vales ardam, quero que as cidades ardam, quero que tu ardas também. quero que tudo arda até às fundações e que não reste mais nada que uma pouca de cinza fria no ar e na terra. quero que tu ardas, quero que te sintas tão desesperado como uma miragem no deserto. quero que sintas no peito o coração abandonado como se de outro se tratasse. quero que tudo arda, quero que sofras como eu sofro – e aprenderei a rezar para consegui-lo.

Fais Attention

March 7, 2009

olha para mim. olha-me. vê, como eu venho até ti. sou feita de carne e sangue e nervos e ossos e coração. meus pés calcam a terra firme, tenho calcanhares de mercúrio, pulsos de enxofre e coração de sal. meus braços erguem-se em socorro até à vastidão dos céus, toco as estrelas com as pontas dos dedos. minhas pernas são colunas, sustentáculos do templo vivo de meu corpo. olha-me, vê como venho até ti. ama-me não como a criança que viste ou como a jovem que conheceste mas como a mulher que agarraste em teus braços. sou feita de prometer. pulso forte, pulso bem nas tempestades. quero a espessura maciça de teu ser, teu ser completo como o conheço, tu a quem nada escondo, tu a quem tudo revelo. e vejo-te, tu, só, além, tu que viraste o meu mundo ao contrário, sê tu a última reza de meus lábios e a última canção de amor de meu ser. pensa na distância que franqueei para estarmos juntos, como uma torre que construí para de cima dela veres à volta toda a paisagem deslumbrada em teus olhos. sobre meus lábios pacificados deponho o gesto universal do silêncio. vem, o templo é teu. tem atenção às estrelas…e atravessa as fronteiras até mim.

Rh II

March 6, 2009

o meu coração

o meu coração pende

o meu coração está suspenso

apenas um fio de sangue o sustém

ó lanternas de fogo

ardam na noite

não descanso a canção é densa

e arrebata-me a claridade

Désir

March 2, 2009

uma voz clama no deserto. sinto calor a sair de mim, sinto amor a sair de mim. procurei-te pela cidade inteira. vim dar contigo. tudo o que aconteceu estava escrito, vi dois cálices e um rei de espadas. tenho andado sem fome desde essa altura. perco a fome quando penso demasiado, quando estou apaixonada. quero que fiques com o meu sangue derramado. tremo quando não sangro. tuas mãos brincam ao esconde. quero viver contigo sem testemunhas. tenho um local silencioso dentro do meu coração que ninguém conhecerá. é feito de cor verde e floresta virgem. e lá dentro grito por socorro sem palavras. simplesmente ergo os braços. vejo a bondade nos teus olhos. a ausência dorme comigo, todas as noites. não te magoes. onde é que vivo? num turbilhão de espadas, num bosque de árvores de tangerina. não quero morrer sozinha. mata-me. deixa que o amor aconteça. vejo tantos seres em sofrimento. preciso de cantar a uma criança até ela adormecer. conheço-te de olhos fechados. conhece-me de olhos abertos. se pudesse ser um gesto de amor seria uma carícia sem fim. quero que fiques com a minha sombra protectora, para te proteger do sol que te cega. e quero brincar ao esconde e dar-te beijos e dizer que gosto dos teus olhos e sentar-me no chão enquanto abres as janelas roubar-te cigarros e tocar a tua pele e dizer o quanto gosto da tua alma e do teu peito e dos teus lábios – e esconder-me num canto a fumar até me descobrires lá e desintegrar-me quando te ris e derreter-me quando sorris e contar-te sobre a floresta encantada e sobre o anjo que voou sobre a Gronelândia e pensar como é que te chegas até mim e ter uma ternura tão profunda que para ela não existem palavras e vaguear pela cidade pensando que está vazia sem ti e fazer amor contigo às três da manhã para te dar a conhecer que o tempo é eterno e de alguma maneira dar-te algum do esmagador, perene, inegável, irresistível, incondicional, abrangente, insultantemente verdadeiro, preenchedor, libertador, desafiante, contínuo e frágil como o mundo amor que tenho por ti. estou aqui para me lembrar. abandona-te. sou a mulher de olhos tristes pelos pecados da qual os mártires morrem. queres entender. não tenho palavras, as minhas palavras gastam-se, como o vento que passa, tudo o que tenho é poesia e música. penso em ti. uma dor surda em mim como faca atravessada. só um milagre nos pode salvar. sou pura, sou desfeita, e ninguém me pode salvar. bebo de copos vazios. sonho contigo. gosto de te ter dentro do meu pensamento. gosto de te ter dentro de mim. o amor poderia ter-me destruido, mas o amor construiu-me. gosto dos teus acasos. preciso muito de verde frente aos meus olhos. o meu coração está resplandecente e cheio de luz. beijar os segredos. tudo o que toco se transforma em luz pura. abro a boca para engolir a chuva que cai, o longo choro do céu sobre a terra pinga-me garganta abaixo. beijos como feitiços. no fundo do meu amor estão os alicerces do respeito. corro por entre as ervas, urze violeta a arranhar-me as pernas. és lindíssimo. começa de novo. olho para teu peito, fico cega de tanta luz. um fio de sangue apenas sustém meu coração, não me digas não, jamais. sombrio anjo divino. atravessei dois rios e numa margem chorei. o grito de uma flor. a sombra de um grito. os teus olhares são um acto divino. nunca guardes recordações de um ódio de morte, apenas de um amor de vida. as emoções serem escritas por seres sem medo.

Rh

February 23, 2009

dos cinco cantos do mundo emana um cheiro profundo a carne. sangue em liquefacção. as cidades estão vazias e desertas e não se vê vivalma. os rios correm vermelhos, vermelhos de sangue, as suas nascentes rompendo rubras como artérias abertas, e correm lentamente até aos oceanos, emanando o vapor do sangue quente como fumo branco no ar gélido. os pólos derretem e as suas águas misturam-se com os rios de sangue que agora fluem e se fundem com os oceanos. o sol brilha, iluminando a terra, que lentamente é inundada e coberta, continente após continente, com um vasto fluir de sangue líquido e quente. vista da lua a terra torna-se um imenso planeta com um único oceano de líquido vermelho uniforme, brilhando rubra no silêncio dos grandes espaços entre as estrelas para sempre.

Aurora

February 23, 2009

e sozinha, dentro da catedral, canto no coro, sem ninguém que me ouça – e assim o quero – canções sem tempo vindas da alma. de meus olhos fatigados escorre água que não reconheço como lágrimas, mas como diamantes. sangue escorre-me pela coxa, que não deixo parar, como água marinha carregada de sal e de furor. meu coração ergue-se até às alturas enquanto canto, olhos fixos na nave, seixo luzente polido décadas e décadas pela corrente no fundo do rio do ouro, que coloquei em mão amada numa noite de tormenta. minha voz alça-se fresca como o sumo de rubra salsaparrilha que cresce viva e selvagem pelos campos desolados. e é ónix negro meu espírito, com luz presa por dentro, reflectindo o nada e o vazio do universo, todos os elementos fundidos e presentes num só. oferta-me o Oriente frutos de granada aberta, o labor da Natureza em todo o seu esplendor, e laranjas vermelhas de suco ácido e fresco para mitigar toda a sede de saudade. veste-me a púrpura da concha de Murex, ataviada como raínha sem reino, que nomes têem os teus reinos? e para coroar a esmagadora solidão é a própria tábua de esmeralda que jaz rachada a meus pés, porque acabei de destruir e tornar obsoleta toda a lei e todo o pecado, e todo o meu sangue canta, canta alto, e corre incessantemente até ti, sem descanso, em cuidados. arrebatada no rubor da aurora.

Argonauta

February 21, 2009

um furacão atingiu o oceano calmo de meu ser, transformando-o num mar impetuoso e sem fome, e eu, comandante de meu Argo, navegando sob bandeira negra, enfrentando uma vaga imensa na qual o meu navio estremecia, como orientação apenas a estrela do Norte à minha vista nos céus abertos. enfrentei aquele mar tumultuoso com coragem, sem medo, confiante, entreguei-me à fúria dos elementos e das ondas navegando sem retirar as mãos do leme, de pulsos fortes e mente gélida. como uivavam os ventos! como não amainava a tempestade. entreguei-me sem receio à fúria do mar, sobrepassando cada onda gigantesca, ao leme, o meu corpo estremecendo e balançando, sobre mim brilhando o Sete-Estrelo e o vento soprava forte sem descanso. enfrentei a tempestade, de coração impassível, sem medo de morrer ou de que o meu navio se afundasse. mas após a tempestade vem a bonança, e acordei calma, navegando num mar calmo sobre o qual o Sol brilhava puro e limpo. porque em instância alguma perdi o Norte, porque o Norte guiou-me através da tormenta sem descanso. porque minhas mãos firmes foram feitas para navegar esta nave, esta nave que é minha, que navego com o suor de meu corpo, que conduzo com meus pulsos.

e agora diz-me, companheiro, se este mar calmo a nós pertence. porque jamais lobrigámos qualquer outra nave que a nossa, navegando em suas ondas. com esta nave sulco o oceano, com esta nave escrevo eu, páginas sobre o mar, de orientação clara e claro entender.

 

 

 

 

“O Trinity of love and power

Our brethren’s shield in danger’s hour

From rock and tempest, fire and foe,

Protect them all, wherever they go;

O hear us when we call to thee,

For those in peril on the sea.”

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